Em 60 dias

Ele chegou no final de janeiro, trazido pela minha mãe lá de MG com uma aparência frágil e abatida, quase como aquelas pessoas que vemos na televisão sofrendo de desnutrição por algum lugar do planeta. Olhos tristes, coluna curvada, trinta e oito quilos. Menos do que muita criança por ai, pensei. Aliás, como foi que deixaram chegar a este ponto? Pensei mais uma vez com uma certa revolta e indignação. Mas eu já sabia a resposta. Não havia responsáveis, estrutura, planejamento, nada. Só mais um triste e real caso de desestrutura familiar e pobreza.
De toda a minha vida, acho que estive na presença do meu avô por cinco ou seis vezes. A referência de boa pessoa que eu tinha era toda formada pelas lembranças da minha mãe que não se cansava de contar o quanto ele a acalentava quando criança, quando tudo o que ela tinha no mundo eram duas pessoas que lhe dera um lar mesmo em extrema dificuldade, e a quem até hoje ela reconhece como pai e mãe.
Esta relação limitada fez com que eu me reencontrasse com uma pessoa a quem eu deveria respeitar, ajudar, mas fatidicamente não havia laços fortes construídos sendo a distancia entre nós beirando a um penhasco. E por isto mesmo não achei justiça no fato de em seus últimos dias em vida, eu estar lá, tentando oferecer apoio e ajuda a quem nem sequer me reconhecia. Ele merecia mais.
Nos dias finas, mesmo antes de ser internado, ele já não reconhecia as pessoas a sua volta, e chamava por nomes de pessoas do seu passado. Durante a internação, minha família se revezava para assisti-lo, e  eu mesma fiquei apenas duas vezes ao seu lado, pensando exatamente o que escrevo hoje, que ele merecia mais do que estranhos sentados ao seu lado. No final da vida, no momento da partida, ele merecia estar cercado de afeto, de amor, de pessoas que reconhecessem nele o homem bondoso e alegre que ele foi. Não parecia justo uma pessoa viver tantos anos, fazer tantas coisas, e no final, falecer numa cidade estranha, cercado por pessoas que não o conheciam muito bem. Mas por outra perspectiva, o bem que ele fez lá atrás, quando adotou minha mãe como filha, e deu a ela o bem mais precioso que ela poderia ter, o amor de uma família, lhe rendeu como retribuição a filha que nunca esqueceu o pai que ele foi, e mesmo ele tendo outros filhos legítimos, foi dela a iniciativa de cuidar, de amparar e fazer o possível  para que ele ficasse bem, quando ninguém mais estava disposto a fazer isto. 
60 dias foi o período entre o falecimento da minha avó e a partida do meu avô. Acho que para o coração e mente daqueles que os estimava, foi melhor assim, um não viver sem o outro.
Para nós, foi um período tenso, que deixou algumas marcas na família e algumas oportunidades de aprendizados, como a  reflexão da brevidade da vida, o valor do momento presente, o legado que deixamos no mundo, e como tudo pode mudar em 60 dias.
Gostaria de ter uma foto bonita para esta postagem, e então pensei em colocar uma da cidade natal dos meus avós, um distrito em MG chamado Açucena. Infelizmente, não tinha uma foto minha para postar, então encontrei esta na internet (fonte brasilgigante.com).
Assim que me recordo de Açucena: estradas de terra, muito sol, seca, distante de tudo, a cidade onde minha mãe teve um lar.

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