A obrigação de ser feliz


Neste dezembro li um texto tão bom, que traduzia tão bem meu sentimento em relação a agitação das festas de fim de ano, que qualquer tentativa de reproduzi-lo seria mera cópia, então, decidi transcrever um trecho do texto de Ronaldo Bressane para a matéria de capa da Revista Vida Simples, edição de nº 125:
"Onde você vai passar o Ano-Novo?" É uma obrigação moral dar a essa pergunta uma resposta convincente e convicta, tipo Nova York, Caraíva, Paris...uma praia isolada, em algum lugar bacana e descolado. Pega supermal mandar um ''ainda não decidi" ou "aqui mesmo, nesta cidade" (ainda mais se "esta cidade" for São Paulo). Vão encarar você como um loser ou alien..."
E no decorrer do texto ele fala sobre outras obrigações morais que surgem no fim de ano todas resultando no 'dever' que temos de sermos felizes, e mais ainda, de mostrar esta felicidade para todo mundo, nas redes sociais principalmente. Lendo o texto (espero que um dia tenha a oportunidade de ler também) me surpreendi ao ver traduzido em palavras alguns dos pensamentos que há algum tempo carrego comigo...Como por exemplo, gastar dinheiro com presentes pela obrigação de presentear a todos, como forma de mostrar como tão bem sucedidos somos ao ponto de podermos presentear as pessoas (mesmo que de fato você parcele tudo no cartão de crédito e depois veja como vai pagar), da obrigação de montar uma ceia de Natal com a família, onde a paz e união devem obrigatoriamente reinar, não importe os infortúnios que tenha passado ou que esteja passando ou ainda, de ter que mentir sobre não ter ido a nenhum lugar incrivelmente legal no Natal ou Ano-Novo para não parecer um fracassado, um perdedor (ou será que todo mundo tem sabedoria e humildade para admitir que não fez nada além de ficar em casa mesmo...? rsrs).
O texto me impactou tanto porque, em mais de uma vez e por um longo tempo, eu estive apegada a essas convenções sociais. Sim, eu confesso: eu me importava com a roupa que eu iria passar o Ano-Novo (que tinha que ser realmente nova) e sempre gastava dinheiro para montar um 'look ideal' sabe-se lá para que (ou para quem) já que eu não iria a lugar nenhum, eu fazia planos sobre qual lugar bacana eu passaria o Natal ou Réveillon, para depois me frustar quando percebia que não teria condições para bancar aquilo  (já notaram quão alto é o preço de uma passagem e hospedagem para qualquer lugar deste país, sem citar o estrangeiro nesta época de festividades?). Eu não via qualquer glamour em reunir-se com a família para fazer as mesmíssimas coisas que fazemos todos os anos, e depois, cada um ir para casa para dormir cedo por falta de opção do que fazer, e no dia seguinte almoçar e jantar as comidas de Natal que sabe lá porque, insistimos em fazer aos montes, e eu era sim contaminada pela euforia das comemorações, pela necessidade de ser, de fazer de ter vivido o que todos considerariam 'um Natal maravilhoso ou uma virada de ano inesquecível'...
Acho que sinto até um certo constrangimento por revelar isto...escrito assim, soa tão fútil e infantil como uma adolescente chata reclamando da vida...Mas parando para pensar, não faz muito tempo que eu realmente era uma adolescente...Faz poucos anos que percebi que com o fim de ano, vem também inúmeras responsabilidades impostas a vida de adulta...contas e mais contas que precisam ser honradas já na primeira semana do novo ano que começa, esteja você preparada ou não. Não faz muito tempo que comecei a enxergar que 'ser feliz' na época em que todo mundo quer ser também tem um preço a se pagar...filas, praias cheias, restaurantes lotados, preços altíssimos, transito lento, estresse geral...Bastou um único Réveillon na praia para eu constatar que não queria reviver aquilo tão cedo...parecia tão legal pela TV, mas no dia 31 choveu muito, mal consegui ver os fogos, o cabelo quase foi chamuscado por sobras de fogos de artificio e por fim, fui parar em um hospital lotado devido a uma intoxicação alimentar...Foi o caos, mas foi o pontapé inicial para minha resignação.
Foi difícil (e ainda é) me libertar das obrigações morais de ser feliz com todo mundo aparente ser, mas reconhecer e valorizar o que tenho, e não o que acho que deveria ter, me ensinou a criar meios de valorizar as pessoas que estão comigo, a querer fazer com que o Natal delas seja bom, realmente agradável, em paz...e também me esforço para reconhecer que por mais tranquilo e modesto que seja minha virada de ano, ela tem seu valor porque simplesmente estou ali para viver isto, estou viva, com a família e amigos, com saúde...o  que mais eu poderia querer para me sentir bem? Na verdade nada, sabemos disto. Mas as vezes deixamos que a felicidade alheia nos confunda e obscureça nossa visão para enxergar o que realmente tem valor...
Neste momento, estou à espera do novo ano...nada de esplêndido foi preparado, apenas jantar com família, rever alguns amigos, dormir cedo certamente...Mas sabe, me sinto muito melhor por compreender que as vezes, isto é o que basta, e sinto até um certo prazer...

7 comentários:

  1. Adoreei seu texto, Van!!!
    Aqui em casa, nós sempre passamos em familia... No inicio, confesso que tinha essa coisa de "roupas", de presentes. Mas com o passar do tempo, percebi que o Natal deveria ser todos os dias do ano e que a única coisa que não pode faltar na virada de ano é a gratidão por estarmos vivos e por ainda sermos capazes de sonhar e inventar um novo ano!

    Que é dificil ir contra tudo, é sim! Mas é mais feliz, porque não tem tantas cobranças!

    Que seu novo ano seja cheio de felicidades, amor, paz e que Deus ilumine seu lar!

    Beijinhos!!!! ♥

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    1. Da, será que é a maturidade que nos faz perceber isto? No inicio eu era mais apegada a essas coisas (como a roupa da virada...rs) e agora me sinto mais centrada no que realmente importa...e como disse, sem tantas cobranças.
      Obrigada pelos votos e espero que 2013 seja maravilhoso para você tb!
      bjoooo!

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    2. Obrigada pelos votos!!! Que 2013 seja maravilhoso para nós!

      Quanto ao que você disse, acho sim que a maturidade nos ajuda a desapegar. Acho que a vida adulta nos dá tantas coisas pra resolver, tanto tempo que a gente precisa gastar no nosso dia-a-dia e, também,tanta coisa boa acontece que essas coisinhas "desnecessárias" acabam ficando de lado e a gente logo percebe o verdadeiro valor das coisas. =)

      Beijinhos!!!! =*

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  2. Van, adorei! obrigada por compartilhar! Eu tinha lido um comentario seu no facebook a respeito da pergunta "onde vc vai passar o final de ano?" e achei demais!
    Divido com vc os mesmos pensamentos e sentimentos. Na verdade eu já comecei a dar valor em passar essas épocas festivas com a familia já algum tempo, principalmente depois de ficar longe por 4 anos. Viajar para praia no reveillon eu nunca gostei, primeiro que sempre chove mesmo, haja o que houver, segundo, é muita gente, muiiita e não gosto de lugares lotados de bêbados e terceiro, tudo é estratosfericamente caro!! Acho que passei o reiveillon na praia 3 vezes, mas em esquema super barato camping, casa de amigo e choveu nas 3, mas foi legal, estava solteira e tal, mas agora estou em outra sintonia, não dá mais.
    Os presentes de natal é algo complicado, eu realmente prefiro dar um presente fora de época, quanto acho algo legal. No natal tenho que ficar procurando e nunca acho nada legal pras pessoas. Além do tumulto, da correria. Mas não dá para nao dar presentes, recebo presente da minha familia e da familia do marido, mas colocamos um limite, por que senão o salario inteiro vai para presentes, não que as pessoas não mereçam, mas não posso, não tenho condições. Mas também alguns anos aprendi comprar presentes no decorrer do ano, em promoções e guardar até o natal.
    No final, a gente acaba aprendendo a seguir as regras e cobranças da sociedade do nosso jeito, sem sofrimentos apra nós e sem a sociedade achar que somos aliens. Mas já algum tempo, talvez desde sempre, nunca liguei muito para essas regras não!
    Um ótimo 2013 para você Van!
    Grande beijo

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    1. Oi Ro, que bom que gostou! Na verdade, a frase no Face não foi suficiente...eu precisava falar mais...(e achei que lá não era o lugar adequado para isto, digamos...rs) Dai resolvi escrever tudo aqui neste espaço que esta sendo como que um diário para mim...Adorei seu comentário grandão assim, é como se a gente conversasse por ele! Sobre os presentes de Natal este ano eu tive uma ideia diferente: resolvi presentear as mulheres da minha família fazendo eu mesma porta-bijuterias para elas, uma caixinha pequena de mdf forrada com tecido...ficou muito bonitinho e elas adoraram! Foi o jeito que encontrei de presentea-las, mas sem gastar muito sabe...mas no geral é mesmo complicado não entrar na onda do consumismo, mas você esta certa, a gente acaba aprendendo a lidar com isso...
      bjo querida e muito obrigada pela visita!!

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  3. Nunca senti essas necessidades, meu natal sempre foi exclusivamente com a família e nunca pensei em passar de forma diferente. Reveillón faço o programa que mais me agrada e são raras as vezes que viajei. Já deixei de passar reveillón em uma festa regada com tudo di gratis com uma amiga para passar num apartamento de 60m2 com 30 amigos da faculdade, só pela festa e pelas pessoas. Eu gosto sim de reunir os amigos no reveillon, agora que tenho casa, faço festa lá para receber as pessoas, do meu jeito, sem pompa e circustância, o objetivo é reunir os amigos e celebrar a vida. Acho que é isso que mais importa.... Dessas obrigações sociais, a única que me vejo seguindo é a roupa do reveillon. Não costumo me importar com o natal, mas reveillón gosto de estar me sentindo bem, com uma roupa nova e com as cores que eu quiser. Não sou de comprar muitas roupas ao longo do ano, então, no meu aniversário e no reveillon faço questão ;)
    beijocas e um lindo 2013 pra vc!

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    1. ah Ju que bom! Pq confesso que muitas vezes sonhei em ver os fogos da tradicional praia de Copacabana (super turista, eu sei...rsrs) ou viajar para algum lugar legal...a tradição aqui em casa é passar Natal com a família, já ano novo é cada um pra um canto ai fica dificil reunir todo mundo, mas concordo com voce que é muuuito legal passar perto de quem a gente gosta...faz todo sentido do mundo!
      bjo grande e obrigada por comentar, feliz 2013 pra vc tb!!

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